ensaio fotográfico para a peça





fotos: Rosana Kali
ensaio fotográfico para a peça





fotos: Rosana Kali
Cuidado nas esquinas
E cuidado nas quinas
dos móveis e das paredes
Cuidado nos bares nas noites nos mares
Cuidado cuidado cuidado
Pois pode ser fatal
Cuidado em casa
Cuidados em vilas em morros em rios
Cuidados dos pais dos filhos dos tios
Mil filas a enfrentar, esperas a aguardar
E guardiãs etéreas sobre nossos troncos
Guardiãs de longe
A onda, a cidade e a chama não são quadradas nem redondas,
São curvilíneas linhas no ar
Calçada fácil de tropeçar difícil de escalar
Cuidado de mãe e cuidado de avó e avô
Um pássaro vôo
Na hora em que o Sol nasce
Na hora em que ele morre
Cuidado cuidado cuidado
Pois pode ser fatal
Ter cuidado
Senhor, Senhora
Cumpro meus deveres
Sempre de modos inusitados
É bem verdade que não sei falar de mim
E isto se torna uma obrigação corrompida.
Por que tanta insistência
Que o assunto seja sempre eu
Ou você
Ou nós
Sempre nós
É importante?
Eu sou eu nos outros e os outros em mim
Eu sou outros nós, eu nós
Eu e você sou nós
Nós são todos nós
Eu sou eu
Eles são outros que não estão aqui
Os outros é que são eu
Eu me sou sem mim como o princípio no fim
E a formiga na geladeira
Porque resolvi ir sem me despedir
Cumpro meus deveres
Sempre de modos esperados
Não cumpro os deveres
Não há nenhum dever a ser cumprido assim
Na solidão, acho meu conforto e a minha inquietação
Estranha solidão que almejamos e não
pequeno poema do grande poeta chileno:
Otro
De tanto andar una región
que no figuraba en los libros
me acostumbré a las tierras tercas
en que nadie me preguntaba
si me gustaban las lechugas
o si prefería la menta
que devoran los elefantes.
Y de tanto no responder
tengo el corazón amarillo.
(Pablo Neruda – El Corazón Amarillo)
Eu vou falar eu vou ouvir eu vou cantar eu vou calar
Embora os fatos se escondam, tanto mais os não-fatos
Mais tarde somem os sins e nascem os nãos
Atravessam os talvezes e ficam as interrogações
meu deus
pode-se viver nas paredes de fotografias
e nas caixas de sapatos.
solitária, cantando; enlutada, orando
eu sei e soube, entre a certeza e a fé
quero porque não quero
Não saberia Não saberei
Um dia talvez
Que rostos têm os anjos? Que nomes?
Quem são? E quantos?
E quem confundir anjos com demônios?
Pois estes já não foram aqueles?
Alguém desceu do sótão com uma lágrima no olho direito!
Coitado, este já está condenado.
Quem é aquele que está me olhando?
Estou sendo vigiada quando estou sozinha?
Quem mais está aqui comigo nesta escada vazia?
Quem? Quantos? Onde? Por quê? Sou?
Eu preciso saber por que me movo .
Todos quiseram explicar, eu me entediei com as respostas
Alguém jogou a culpa em mim, e eu me desculpei
Ninguém mais me respondeu
De quem é a culpa? De quem será?
Tantas mortes a serem colhidas
A vida é feita de pequenos e grandes abandonos
O teu olhar primeiro foi uma das minhas milésimas mortes
Teu rosto É este o rosto que devem ter os anjos
E os demônios também
À milhas de abismos daqui
Orbitam asas frescas esperando pelos passageiros
Pelos peregrinos do infinito
No porão da noite guardei um sonho bonito
Não é o momento Ainda não é o momento
Mais um coração trancafiado no tártaro negro
Eclodiu o clarão do relâmpago silencioso
Já era mais que tempo
Estou desenterrando uma vontade antiga
Já era mais que tempo de desenterrar a vida
E Deus despertou do sono que teve
um recente poema da minha irmã:
Os tempos vão lentamente caindo,
A areia escorre na ampulheta.
Miúdos, miúdos pedaços.
Muitos pedaços miúdos jogados uns sobre os outros.
Fico pensando em pedacinhos de mim,
Escorrendo como areia,
Marcando as horas dentro de um vidro.
Uma miúda sensação faz escorrer sobre mim outras miúdas sensações.
Tenho saudades inexatas
E cúbicas lágrimas,
Gelo que desliza os olhos.
Não há como pontuar a eternidade
(Rosana Kali)
Novas fotos da nossa peça, que estará de volta em cartaz no Sesc em agosto.





Eu, que fui a amante do mais belo dos homens,
Qual um deus na Terra,
Eu percorri ilusões sem nome
E os sentidos da sobriedade
Eu vesti com um arco-íris de cetim.
Eu, que gostaria de ter a vista nua,
Tive nuvens sobre mim.
Meus olhos se misturaram aos de um desconhecido,
E eu fui infiel comigo quando o trai.
Porque desconhecendo, eu mais conhecia;
E quanto mais chorava, mais ria.
Como inexoravelmente acontece,
O que era jovem virou ontem;
E eu não tornei a ver a face do amante.
Contudo meu coração albino canta ainda,
Como sempre cantou, todas as canções ilícitas.
Para ele,
Eu continuo sendo uma muda prece,
Nunca um grito encarnado.
Eu me tornei menos que uma prece,
Apenas um gemido calado.
Entretanto agora,
Meus passos se afastam,
E também ele não tornará a ver a minha face.
Um dos meus poemas preferidos do meu amigo Marcelo:
ESTAÇÃO DO SILÊNCIO
A estação do silêncio está chegando
Percebo pela mira dos seus olhos
E pelas sombras que se formam no vazio
O descanso das canções não tardará
Sinto pelas emoções
Que me escorrem através dos dedos
E pela fria evaporação de meus desejos
A estação do silêncio está chegando
Minhas asas vão secar e cair
E meus pensamentos engolirão a mim mesmo
( Marcelo Domingues – A Luz dos Lunáticos)