Arquivo da categoria ‘minha voz escrita no vidro’

perguntas sobre anjos e demônios

Dezembro 6, 2008

Eu vou falar eu vou ouvir eu vou cantar eu vou calar
Embora os fatos se escondam, tanto mais os não-fatos
Mais tarde somem os sins e nascem os nãos
Atravessam os talvezes e ficam as interrogações

meu deus

pode-se viver nas paredes de fotografias
e nas caixas de sapatos.

solitária, cantando; enlutada, orando

eu sei e soube, entre a certeza e a fé

quero porque não quero

Não saberia Não saberei

Um dia talvez

Que rostos têm os anjos? Que nomes?
Quem são? E quantos?
E quem confundir anjos com demônios?
Pois estes já não foram aqueles?
Alguém desceu do sótão com uma lágrima no olho direito!
Coitado, este já está condenado.
Quem é aquele que está me olhando?
Estou sendo vigiada quando estou sozinha?
Quem mais está aqui comigo nesta escada vazia?
Quem? Quantos? Onde? Por quê? Sou?

Eu preciso saber por que me movo .

Todos quiseram explicar, eu me entediei com as respostas
Alguém jogou a culpa em mim, e eu me desculpei
Ninguém mais me respondeu
De quem é a culpa? De quem será?
Tantas mortes a serem colhidas
A vida é feita de pequenos e grandes abandonos
O teu olhar primeiro foi uma das minhas milésimas mortes
Teu rosto É este o rosto que devem ter os anjos
E os demônios também

Já era mais que tempo

Junho 2, 2008

À milhas de abismos daqui
Orbitam asas frescas esperando pelos passageiros
Pelos peregrinos do infinito
No porão da noite guardei um sonho bonito
Não é o momento Ainda não é o momento
Mais um coração trancafiado no tártaro negro
Eclodiu o clarão do relâmpago silencioso
Já era mais que tempo
Estou desenterrando uma vontade antiga
Já era mais que tempo de desenterrar a vida
E Deus despertou do sono que teve

Abril 27, 2008

Eu, que fui a amante do mais belo dos homens,
Qual um deus na Terra,
Eu percorri ilusões sem nome
E os sentidos da sobriedade
Eu vesti com um arco-íris de cetim.

Eu, que gostaria de ter a vista nua,
Tive nuvens sobre mim.
Meus olhos se misturaram aos de um desconhecido,
E eu fui infiel comigo quando o trai.
Porque desconhecendo, eu mais conhecia;
E quanto mais chorava, mais ria.

Como inexoravelmente acontece,
O que era jovem virou ontem;
E eu não tornei a ver a face do amante.
Contudo meu coração albino canta ainda,
Como sempre cantou, todas as canções ilícitas.

Para ele,
Eu continuo sendo uma muda prece,
Nunca um grito encarnado.
Eu me tornei menos que uma prece,
Apenas um gemido calado.

Entretanto agora,
Meus passos se afastam,
E também ele não tornará a ver a minha face.

Asas algemadas

Março 16, 2008

Por mais que fossem sólidos os sonhos,
Eles derreteram na geladeira do medo.
O desejo foi guardado como um segredo
E como um pecado para as almas de neve negra.

Com suas duas asas algemadas
Ele teve tempo de sentar e se tocar,
Porém não quis olhar pela janela as estrelas que perdeu.
Ele, querubim de vento e seu lamento.

Os risos foram vetados
E se esconderam atrás do infinito.
A verdade também está interditada
Ou então esquecida longe dos deuses inventados.

Ela esperava ainda por ele,
Contudo era loucura ou era sanguinário.
Talvez fosse desnecessário o que já fora urgente.
Ela, a vela que ele acendeu e assoprou.

O espírito dourado

Março 9, 2008

Não mais os caminhos holográficos,
Não mais as paixões irreais.
É hora de acordar o espírito dourado!
Inundar a alma de poesia.
Quero ser a essência do infinito.

Eu chorei uma lágrima incolor.
Eu chorei uma lágrima seca.
Eu chorei uma lágrima no interior.
Eu chorei todo o meu passado,
Ondulou pelo olhar marejado,
Uma onda que não voltou.
Agora tenho apenas presente.
Não sou dona do tempo.
E o futuro nunca chegará.

A dor necessária para o aprendizado,
Os erros nos quais nunca mais…
As pessoas que quero reencontrar,
Um dia.
Agora é tempo de encontrar a mim,
Desvendar o meu íntimo segredo,
Escondido atrás de sete véus
Banhados em fel.
É hora de acordar o espírito dourado!

E era…

Março 6, 2008

E era, quem me dera, era primavera e a atmosfera era de outra era que já era, que mesmo que era nessa era parecera que era na era primeva, da primeira primavera.Mas erra quem berra nessa era porque não era a primavera da primeva era, a primeira primavera…        

Noite

Fevereiro 21, 2008

A canção melancólica que suspira a boquinha da coruja
Cobre de veludo a noite de pedra,
E os anjinhos dormem em paz
Com o sono que roubaram de mim.

Sobre um tempo difícil

Fevereiro 15, 2008

Num século oco opaco
Enxerguei o vazio quando olhei para os lados
E um mundo devastado
Eu beijei meus próprios lábios

Atravessei um vale de lágrimas
Até tropeçar num corpo de sangue retalhado
O meu mesmo corpo com zumbis encalhados

Estou distante das velhas estações
Escorrida nas terras que visitei
Com buracos do tempo
Escritos no chão

Que rosto refletiu o espelho
Quando nele me mirei?
Quem é que foi o crepúsculo?
E o que foi a tempestade no fenecer da noite
E o pingar da madrugada?

Colhi cada gota de orvalho
Quando as flores choraram
E velejei pela manhã seca do teu Sol.

Ela, ele. Ele, ela

Fevereiro 15, 2008

Ela, sereia,
Despiu-se branca no momento azul.
Ele, com barba farpada,
Arrancou-lhe a alma inteira.
Depois daquilo
Um labirinto de mágoas
Pingando plic ploc no abismo.
Ela, ingênua sereia insegura,
Ignorante do seu poder de encantamento.
Ele, símbolo machista,
Desconhece as estradas femininas.
Ele e seus olhos quentes
Mascavam a paisagem do corpo dela.
O corpo música de violão.
Folhas castanhas em seu olhar, os olhos trôpegos.
Néctar na voz florida, porém pudica.
As estrelas derramadas nos seus infindos cabelos noturnos,
Cabelos negros com aromas belos e carentes.
Depois daquilo
Um labirinto de mágoas
Pingando plic ploc no abismo.
Ela, TUDO. Ele, NADA.
Ela, nada. Ele, tudo.
ELA, ELE. ELE, ELA.
Ela, sonhadora de castelos medievais,
Sombra encantada.
Ele, príncipe às avessas,
Mas acreditava mesmo na mentira.
Um toque, o sangue no lençol cândido.
Depois daquilo
Um labirinto de mágoas
Pingando plic ploc no abismo.

Canção de Mim

Fevereiro 14, 2008

De mim vou fazer uma canção,
Para gravar na eternidade das flores.
De mim sei sorrisos e dores,
De mim não escondo o coração.

Eu sou de silêncio,
Mas também de cadências.
Eu sou de confusos ruídos
E trovões do inferno,
Auréolas e decadências.

Sou de água com cor de fogo.
Sou de Sol gelado e Lua quente.
Eu sou Eva, Adão e a serpente.
Querubins no portal do paraíso.
Eu sou quem ninguém conheceu.
Eu sou uma das faces de Deus.

Costurando os mistérios
Com fios da minha alma,
Eu sigo a vereda com destino ao eu.